Não é a falta de você que retira meu sono, é oquerer você que insanamente me distrai por longas horas, correndo através dos dias. Eu tento recompor meus pensamentos, juntar todos que terminam com seu nome, amarrá-los e lançar em um abismo de segredos, mas assim que regresso ao meu mundo, lá está você, sentado em minha poltrona preferida, com os pés sobre as minhas colchas que ainda bordo, retalhando os rasgos que você fez em mim, ocupando espaços que não deveriam ser mais seus, que deveriam ser meus, que um dia foi nosso. Canso-me de lutar para expulsar-lhe de mim, por isso me rasgo inteira e fugo de mim mesma, deixando apenas o casulo vazio de mim – cheio de você, ao ponto de transbordar dor pelas peônias que continuei cultivando depois da sua partida. Eu ainda espero o sol, as lágrimas secarem, e forço sorrisos nos jantares entre amigos e familiares, mastigando seus pedaços que foram servidos em louça fina. Vou engolindo, mais uma vez, você, colocando-lhe dentro de mim para que o mundo não volte a cutucá-lo, a enfiar a ponta do lápis em minha história – na nossa história que deveria ser de amor, não de fim.
Eu tentei ocupar minha mente durante os dias que chovia em mim e fazia sol no mundo, aprendi a tocar violão, retirei algumas melodias tristes das cordas, muitas delas com saudades turvas de um moço que andou demais e esqueceu voltar, mesmo quando havia prometido um regresso breve. Assim como as ondas no mar, você não se repete, não se transforma no que um dia foi, nem melhora, continua se diferenciando, sendo sempre um novo; um novo que não quer mais viver comigo, mas insiste em viver em mim. Você banha minha beira, molha minha areia, mas não fica, não permanece, somente me deixa molhada com a sua memória, e depois vai. Eu queria continuidade, prolongamentos, não essa calmaria triste que sempre nasce depois que você some, desaparece antes do sol nascer, não permitindo que meus dedos encontre as marcas das suas asas, porque, eu tenho certeza, você só pode ser um anjo caído para não poder ficar; uma canção de ninar com notas marcadas para o fim, deixando apenas o fio de música fina se perdendo pelo ar abafado do nosso, quer dizer, meu lar.
Essa falta de nós consome meu eu, não existe mais perda, nem novas páginas nesse livro sagrado, usamos todas, rabiscamos tudo. Não há um novo capítulo que caiba eu e você. O amor se tornou pequeno para o espaço que você dedicou a tomar em mim, hoje, acredite, sou apenas você sem mim.
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