sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Era pierrete. . .

Era pierrete. Vivia tristonha pelos cantos aos suspiros e lamentos. Já não tinha sorriso, as extremidades dos seus lábios eternizaram-se num arco emborcado para baixo. Amava em excesso,supria uma paixão desmedida que se alongava noite adentro e enraizava-se dentro dela. Fazia-se companheira, observava seu choro e seus soluços do escuro taciturno que era seu interior. Comprimia-lhe o peito e arrancava-lhe o ar, mas nada fazia para aquietar sua respiração entrecortada. Paixão doentia e perdida, já enramara toda ela e não se avistava mais raíz. Vínculo em anonimato com outro ser de olhar engolidor e sorriso imprudente, criatura soberba e perversa que desprezara um amor mesmo que tão contaminado e doído. Demônio dos olhos de cor inventada, um mar cristalino que aos poucos definhava numa poluição sem fim, escura e profunda. Como podia ser tão audacioso a ponto de rejeitar o que ele próprio suscitara? Com que desculpa esfarrapada fugia da obrigação de amá-la tanto quanto ela amava-o? Que se fizesse cego para todo o resto do mundo e que tivesse olhos somente para ela, que conhecesse a paixão tempestuosa e oblíqua que a aprisionava apenas com um olhar. Paixão que se fazia inimiga, peregrina incerta dentro dela apenas com uma certeza, que era ele. Não lhe estendia a mão nem fazia-se amigável. Paixão desperta que tocava as raias do masoquismo: quanto mais queimava, mais apertado abraçava-se a ela. Melâncolia de choro com porquê definido, fincado em sua mente, porém que brotava sem aviso. Que ele finalmente se fizesse conhecedor, era o que desejava, e pedia, e suplicava em suas preces! Que ele se apercebesse de tudo apenas com o brilho que relampejava em seus olhos castanhos. Sem falas ou declarações derramadas. Pois ela era sua, mesmo com toda tristeza e mudez, apenas sua. De nenhum outro.

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